terça-feira, 25 de abril de 2017

O comportamento irracional dos investidores, ou o porquê de se aportar mensalmente

Até onde o temperamento do mercado influencia nossas decisões? Será que realmente o mercado nos induz a fazer besteiras? Hoje, brindo-lhes com um pouco sobre finanças comportamentais.

É muito curioso observar nosso comportamento enquanto seres humanos, e principalmente enquanto homens. Nos investimentos, assim como na relação com mulheres ou nas nossas habilidades enquanto motoristas, temos sempre uma ligeira sensação que somos melhores que a média. Não adianta esconder, somos assim.

Por isso, somos dotados de uma capacidade fabulosa de, motivados por uma confiança estúpida, agirmos de forma exatamente contrária à que deveríamos, mesmo desconfiando deste erro de antemão. Ou seja: sabemos que, em teoria, deveríamos comprar quando o mercado está desvalorizado; porém, na prática fazemos justamente o contrário. Mercados de alta estimulam nossos ânimos e mercados de baixa nos enchem de medo, de forma que nossos aportes acabam refletindo essas sensações.

Vejam só este gráfico, retirado do livro The elements of investing, de Burton Malkiel e Charles Ellis, mostrando, na prática, sobre o que estou falando:

As barras representam o valor do índice S&P, enquanto a linha representa o dinheiro novo que está entrando nos fundos. Reparem a correlação entre os dois eixos.

Incrivelmente, os investidores investem mais nos fundos exatamente nos períodos em que o mercado apresenta maior valorização. Quando o S&P caiu no gráfico, entrou menos dinheiro novo. É o que dizem de comprar no topo e vender no fundo, que na prática é o que acontece: o investidor deixa-se tomar pela euforia em bull markets e pelo pessimismo em bear markets, fazendo rigorosamente o contrário do que deveria fazer.

Como disse mais acima, a teoria diz que deveríamos comprar quando o mercado está desvalorizado, porém, o que não disse é que muito provavelmente não seremos capazes de fazer essa distinção. Então, como agir?

Uma solução que ameniza grande parte do problema é: aportar sempre, independente do cenário. Desta maneira se estará comprando em ambos mercados (baixa e alta) mecanicamente, ou seja, à revelia de seu humor.

Se tem algo que eu acho realmente uma piada é o investidor comum tentar fazer market timing. Se existisse alguma maneira de prever com alguma precisão movimento futuro dos mercados, fundos de pensão, que movimentam quantidades absurdas de recursos e são capazes de contratar qualquer gestor do mundo inteiro, teriam quantidades de dinheiro próximas ao infinito.

Vejam bem: uma coisa é alocar dinheiro em liquidez e investir apenas na presença de alguma oportunidade razoável, levando a margem de segurança em consideração; outra é fazer market timing. "Agora vai!" ou "agora acabou!" são frases que, de fato, não devem ser ditas pelo investidor inteligente.

Planejar nossas ações com antecedência é uma maneira bastante eficaz de combater nossos inerentes destemperos, por isso digo: é essencial ter uma metodologia de aportes bem definida que ignore completamente o movimento do mercado. Os que optam por comprar mensalmente, eliminam um problema em sua jornada.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A habilidade de se expor ao risco

Está aí um dos temas mais interessantes dentro do estudo dos investimentos. Risco é algo que está em um amplo debate já há muito tempo, e é um conceito que, apesar de ter evoluído bastante, não é unanimidade no meio acadêmico.

O risco é fundamental por estar diretamente relacionado ao retorno. Investimentos com alta expectativa de retorno normalmente são acompanhados de alto risco. Ou seja: um investimento arriscado terá de premiar o investidor com um risk premium, fazendo com que, naturalmente, seu retorno esperado seja maior. Portanto é um desafio para todo investidor montar uma carteira com alta expectativa de retorno e o menor risco possível. Ou, de acordo com determinada tolerância ao risco, conseguir um maior retorno esperado.

Até a década de 90, a concepção mais comumente aceita sobre risco era derivada do modelo Capital Asset Pricing Model (CAPM), que dizia que o risco e o retorno de um portfólio poderia ser determinado por apenas um fator: o beta. O beta, sumariamente, é um medidor que relaciona a covariância de uma ação —ou fundo, ou portfólio específico— em relação a um benchmarking qualquer. Particularmente, nunca gostei do beta como medidor de risco e tampouco da concepção de que volatilidade é risco.

Depois disso, vieram Eugene Fama e Kenneth French e, através do seu three-factor model, estabeleceram que o retorno de uma carteira seria justificado por três fatores de risco:

1) Fator de mercado: este é o chamado risco sistêmico, que é basicamente o risco inerente do mercado acionário como um todo; ou a chance do mesmo colapsar. (Ambos encontraram um risk premium de 7,5% para este fator de risco.)

2) Fator tamanho: derivado da capitalização da empresa, ou a diferença de retorno entre as small caps e as large caps. (Prêmio de 3,0%.)

3) Fator preço: diferença de retorno entre as value caps e growth caps, medidos pela relação entre preço e valor patrimonial. (Prêmio de 5,0%.)

E exatamente no que isso agregou? 

Até então, existiam duas maneiras comumente aceitas para aumentar a expectativa de retorno de uma carteira: aumentando a exposição em ações, ou comprando ações com beta maior. Porém percebam que o risco aqui era basicamente o mesmo. Depois do modelo de Fama e French, estratégias considerando a exposição a diferentes tipos de risco foram possíveis, ou seja: foi possível aumentar a exposição ao risco (e o retorno esperado) ao mesmo tempo em que se estaria diversificando.

Outra abordagem que acho importante mencionar pode ser vista frequentemente em Damoraran, que condiciona o risco como dependente de a análise estar sendo feita em relação à empresa, ou em relação ao patrimônio líquido. Quando se avalia a empresa, considera-se o risco das operações da empresa. Quando se avalia o patrimônio líquido, considera-se o risco do investimento de capital próprio da empresa, que é determinado em parte pelo risco do setor de atividade e em parte pela escolha do volume de dívidas usado para financiar a empresa, ou, em outras palavras, pela estrutura de capital da empresa.

Esta abordagem é extremamente útil para modelos de precificação, como o DCF (ou fluxo de caixa descontado), onde se é necessário estabelecer uma taxa de desconto para o ativo. Basicamente, adota-se taxas de desconto mais altas para os fluxos de caixa mais arriscados e taxas de desconto mais baixas para os fluxos de caixa mais seguros.

Mas estou falando, falando, e quase perco o essencial. Neste texto eu quero mostrar fatores importantes que o investidor deve considerar ao optar por se expor ao risco.

Larry Swedroe chama isso de "habilidade de se expor ao risco" e diz em The only guide you'll ever need for the right financial plan que ela é dependente de quatro fatores: 1) horizonte de investimento, 2) estabilidade dos ganhos mensais, 3) necessidade de liquidez e 4) necessidade de um "plano B".

Após a leitura do livro, creio que poderíamos resumi-los em dois: horizonte de investimento e aversão ao risco.

No primeiro fator, e como já abordado neste blog em algumas ocasiões, temos de ter em mente que, quanto maior o horizonte de investimento, maior a expectativa de retorno e menor o risco do mercado de ações. Neste artigo exploro com mais profundidade o tema. Portanto, é razoável dizer que quanto maior o horizonte de investimento de um investidor, maior deverá ser sua exposição ao mercado acionário. Swedroe vai além, e propõe a seguinte alocação:

Acho importantíssimo mostrar estes dados, pois o brasileiro instintivamente pensa que o mercado acionário é um cassino. Mas o brasileiro só pensa no curto prazo. Portanto, é-se visto como um louco quando se aloca 80%, ou 100% em ações. Swedroe é bastante conservador em sua abordagem, e mesmo assim crê ser razoável uma alocação de até 100% para um horizonte de investimento superior a 20 anos. Afinal, é o óbvio, já que em períodos tão longos o mercado sempre bateu demais investimentos na esmagadora maioria dos períodos.

Outro fator importante, e este julgo ser de cunho estritamente pessoal, é a tal da aversão ao risco. Fatalmente, o investidor deve se conhecer e definir racionalmente qual o tamanho da queda que suportaria ver em seu patrimônio sem que arrancasse os cabelos. Oscilações acontecem e o investidor que não as suporta, agindo conforme as emoções, fracassa no longo prazo.

Swedroe recomenda os seguintes parâmetros:

Já aqui, o recomendado é que, para que o investidor aloque 100% em ações, deve ser capaz de suportar uma perda momentânea de até 50% da carteira. Realmente, não é para qualquer um.

Percebam que, no primeiro caso, a recomendação foi feita com base em estudos históricos de desempenho do mercado. Já neste, o fator a ser levado em consideração é estritamente psicológico. 

Aqui abro um parêntese: poderia prolongar este artigo aprofundando mais sobre a psicologia nos investimentos, mostrando que muitas vezes nosso cérebro (ou nossos instintos reativos) nos trai quando definimos nossa estratégia. O que quero dizer com isso? Primeiramente, que muitas vezes sobrestimamos nosso horizonte de investimentos —os 20 anos na verdade são 5—; ou então, sobrestimamos nossa tolerância ao risco —quando o mercado vai bem, acreditamos que podemos tolerar fortes baixas, já quando elas de fato aparecem... ficamos completamente desesperados. É um tema bastante interessante, mas deixarei para uma ocasião futura.

Voltando. E o que podemos tirar de conclusão sobre as recomendações de Swedroe? Que de nada adianta calcar uma estratégia em estudos, por mais sofisticada que ela seja, se o psicológico não suportar sua manutenção em cenários adversos. O risco é uma faca de dois gumes: apesar de aumentar nossa expectativa de retorno, pode causar-nos transtornos cruéis.

Portanto, e para fechar, é o que sempre digo: investimento não é uma ciência. Cabe ao investidor conhecer-se e adaptar sua estratégia considerando, além do histórico do mercado, seu próprio temperamento.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Small caps: novamente a mesma tecla

Já dizia Nelson Rodrigues, a leitura é a arte da releitura. Neste último final de semana, resolvi voltar a um dos autores que edificou minha estratégia de investimento. Conheci William Bernstein após várias centenas de páginas sobre valuation, exatamente depois de ler John Bogle e desconfiar da minha capacidade como analista de empresas. The four pillars of investing é um livro que fatalmente me marcou e que julgo essencial para um estudioso do mercado. Com uma linguagem simples e instigante, o autor aborda sumariamente todos os principais pontos na construção de uma carteira.

E, como não poderia ser diferente, Bernstein aborda um dos meus preferidos: small caps. O autor recomenda um percentual de alocação neste tipo de empresa, e é algo que desde o princípio desde blog eu venho defendendo. É um fato: existe uma expectativa de retorno maior para small caps, como também para value caps. Por isso, faz sentido para o investidor utilizar desta abordagem.

Comprar empresas pequenas poderá agregar uma capacidade de multiplicação de capital significativa para uma carteira. Óbvio que nossas análises são imperfeitas, mas existe um amplo mercado inexplorado pelas small caps que, por si só, já constitui uma vantagem significativa. O que estou dizendo é que não veremos uma Ambev multiplicar por cinco seu valor de mercado, porque simplesmente não existe espaço para tal.

A abordagem de valor, por outro lado, faz ainda mais sentido: se compramos um ativo pagando menos do que ele vale, é bastante razoável crer que este será, dentro da normalidade, um negócio bem sucedido. Por isso alocar um percentual em small e em value caps é uma estratégia que pode trazer uma expectativa de retorno superior para nossa carteira.

Porém, diferente de outros autores, Bernstein é franco: expectativa não é garantia. E, apesar de sua recomendação, ele nos alerta para o fato de que, juntamente desta maior expectativa, vem o maior risco, a maior oscilação. Portanto, novamente caímos em um princípio básico: quanto de risco estamos dispostos a correr? 

Abaixo, um trecho do livro em tradução livre:

"Não há dúvida de que as small caps são mais arriscadas do que as grandes empresas. Elas tendem a ser frágeis e pouco consistentes. Mais importante ainda, seu volume de negociações é baixo —relativamente poucas ações mudam de mãos durante um dia comum e, em uma recessão geral, alguns vendedores motivados podem baixar drasticamente os preços. De 1929 a 1932, as small caps perderam 85% de seu valor, e de 1973 a 1974, uma perda de 58% foi incorrida. Por que, então, investir em small caps? Porque no longo prazo, eles oferecem maiores retornos; isso é particularmente verdadeiro para small-value caps, como já vimos anteriormente. Quanto de seu portfólio deve ser alocado em small e value caps? Novamente, depende da quantidade de tracking error que você pode tolerar. Small caps e ações de valor podem apresentar desempenho inferior aos índices de mercado por períodos muito longos —às vezes além de uma década, como ocorreu na década de 1990. Para demonstrar isso, compilei os retornos do mercado, das small caps, das large-value caps e das small-value caps nas últimas três décadas na Figura 4-10. De 1970 a 1999, as small-value caps apresentaram o maior retorno (16,74% anualizado), seguidas pelas large-value (15,55%), S&P 500 (13,73%) e small caps (11,80%). Mas a Figura 4-10 também mostra que, nos últimos dez anos do período, esse padrão foi virtualmente revertido, com o S&P 500 sendo o ativo com melhor desempenho, e as small-value caps, o pior. Assim, outra vez, volta à tona o tracking error: quanto tempo você está disposto a observar sua carteira performar abaixo do mercado antes que (esperançosamente) o quadro se inverta?"



terça-feira, 4 de abril de 2017

Fechamento - Março/2017: R$ 82.986,33 (+R$ 3695,24 ou +4%)

Seguindo o acompanhamento da carteira, desta vez mais rápido que o habitual.

No geral, um bom mês, em todos os quesitos. Mas vamos aos números:

1- Evolução patrimonial





O patrimônio apresentou mais uma bela subida, chegando aos R$ 82.986,33, distanciando-se ainda mais da projeção feita há três anos para este mesmo mês. Nada muito impressionante, porém também não é de se desprezar. Os primeiros R$ 100 mil vão se aproximando e será uma marca significativa, afinal de contas, pouquíssimos brasileiros têm a oportunidade de ver em vida um patrimônio líquido deste tamanho. Mas claro, perto dos objetivos de longo prazo, R$ 100 mil são apenas uma nota de rodapé.

2- Comparativo de rentabilidades

Mais uma boa rentabilidade, de 1,87%, deixando a carteira pela primeira vez ligeiramente acima do CDI. Também não é grande coisa, principalmente porque o Ibovespa, apesar de uma desvalorização neste mês, ainda estar consideravelmente à frente.

Abaixo, os valores compilados:

Rentabilidade mensal: 1,87%
Rentabilidade anual: 12,67%
Rentabilidade histórica: 22,64%

3- Aportes mensais

Um aporte razoável (para os meus padrões), ligeiramente acima da meta. Provavelmente este será um ano sem muitas surpresas neste quesito: estagnado em valores, porém consistente.

Estou inclinado a direcionar 50% dos aportes mensais à renda fixa pelos próximos meses, por não estar muito confortável com os preços da maioria de minhas ações. Isso que não quer dizer que creio que estejam caras, mas sim com margens de segurança abaixo do que considero ideal. As que estão em patamares razoáveis ou bons, já possuo considerável exposição. Portanto, desta maneira continuaria aportando em ações, porém paralelamente construindo uma reserva em liquidez afim de esperar alguma oportunidade (que pode inclusive não estar relacionada ao mercado de ações). 

Divulgados os relatórios anuais, também é hora de analisar minuciosamente o desempenho de cada uma das empresas da carteira e das empresas de fora que acompanho. É um trabalho considerável, mas creio que uma vez por ano é o mínimo aceitável para alguém que se arrisque a escolher as próprias ações.

Seguimos em frente!

segunda-feira, 27 de março de 2017

Questões basilares e recorrentes

Não sei exatamente por que, mas o blog recentemente tem atraído um público significativamente maior que no último ano. Por enquanto, isso tem sido positivo, visto que discussões saudáveis têm acontecido entre investidores realmente interessados em estudar e se desenvolver. Meu último post de fechamento, por exemplo, foi um festival de perguntas técnicas sobre empresas.

Sendo assim, resolvi fazer um apanhado de algumas questões que têm sido recorrentes, algumas delas já abordadas anteriormente. Faz parte: estudar investimentos, assim como em filosofia, envolve estar sempre voltando aos mesmos pontos, como em círculos. Não são ciências lineares, com respostas certeiras e pelas quais se pode tirar conclusões definitivas. Sempre decorrem novos pontos de vista e novas nuances a serem analisadas.

O que me inspirou a criar este post foram as perguntas sobre "se a ação X está cara". Quando me perguntam algo deste tipo, inúmeras coisas me vêm imediatamente à cabeça. Comecemos do início.

Após algumas frustrações com amigos, estou convencido: análise de empresas não é para qualquer um, como se vende em vários livros. E digo isso pelo seguinte: analisar empresas absolutamente não é necessário para se formar uma boa carteira.

Existem duas áreas distintas dentro do estudo sobre investimentos: gestão de portfólio e análise de empresas. Ambas importantes, porém a primeira é fundamental, já a segunda não. Um erro na primeira área pode causar prejuízos terríveis e arruinar uma carteira de investimentos. Um erro na segunda também, porém não para um investidor que se preocupou com a primeira.

Resumo: a decisão fundamental em uma carteira de investimentos diz respeito ao gerenciamento de seu portfólio.

Não está entendendo nada? Deixe-me explicar melhor.

Gestão de portfólio é a área onde são abordados assuntos como: quais classes de ativos investir, qual percentual de alocação em cada classe, quantas ações possuir na carteira, metodologia de aportes, rebalanceamento e sua periodicidade, gestão ativa ou passiva, etc. Aqui está o cerne de toda carteira de investimentos, visto que é através da gestão inteligente do portfólio que a decisão sobre risco/retorno esperado poderá ser definida pelo investidor.

Já na análise de empresas é onde executamos a análise qualitativa e quantitativa de cada empresa específica, e isso envolve: estimativa de um preço justo (ou valor intrínseco), cálculo da margem de segurança, análise relativa, estudo do setor, análise do produto ou serviço, análise dos balanços e relatórios, análise da governança, etc.

Bem diferentes, não? E repetindo: o fundamental está em gestão de portfólio. Mas deixarei este assunto para outra ocasião. Aliás, estou devendo alguns textos para o blog...

Neste artigo, como anunciado, farei um apanhado de questões que têm sido recorrentes, além de algumas basilares ao estudo do investimento. Comentários curtos, porém abrangentes, de forma a deixar delineado, dentro do possível, o que penso sobre o assunto. Então vamos lá.

Análise técnica
Mostre-me algum "tubarão" do mercado que tenha cabelos brancos. Isso não significa nada? Então outra: mostre-me algum analista técnico bilionário que ganhou dinheiro consistentemente ao longo de mais de vinte anos. Não vale alguém que ficou rico em apenas algumas tacadas, porque isso estatisticamente tem de acontecer. Não existe? Suspeito que haja algum motivo.

Ainda não fui convincente? Então pense: se existe algum meio de prever um comportamento futuro através da análise de dados que seja estatisticamente favorável, por que algum milionário não comprou um computador da NASA e colocou uma equipe com vinte hackers selecionados a dedo da Rússia e Oriente Médio para programar o operacional mais perfeito da face da Terra capaz de combinar 300 mil dados simultâneos e realizar 2 mil operações por segundo? Se existe 0,1% de probabilidade a favor, creio que este método daria bilhões em algumas dezenas de dias... Mas por que ninguém fez? Suspeito que não exista probabilidade a favor no que tange ao comportamento do mercado.

Gestão de portfólio
Pense no seguinte: o que você crê que seja mais provável no mercado de ações: ficar magnificamente rico, ou ficar miseravelmente pobre? Acho que é uma questão óbvia, já que temos vários exemplos da segunda hipótese e pouquíssimos da primeira. A grosso modo, podemos então dizer que dos que tomam altíssimos riscos, apenas uma seleta minoria obtém altíssimos retornos. Por outro lado, sabemos que quanto mais diversificada é uma carteira de ações, ou ainda, quanto mais títulos do governo possui uma carteira, menor a chance desta colapsar. Desta feita, é forçoso dizer que uma estratégia que minimize os riscos tenha mais chance de ser bem sucedida do que uma que tente maximizar os retornos.

Ou por outra: abdicar da possibilidade de performances extraordinárias pode ser frustrante, mas talvez seja a melhor decisão.

Renda fixa
As ações são o melhor investimento no longo prazo. Ponto. O equity premium só existe porque existe uma expectativa de retorno superior por parte das ações num prospecto futuro.

Porém, também sabemos que ativos com correlação negativa, quando combinados, elevam a expectativa de retorno de uma carteira, e isso quer dizer o seguinte: não faça como eu fiz, e tenha seu percentual em renda fixa, além de combinar outros ativos com correlação negativa.

Stock picking

Stock picking quer dizer selecionar a dedo as próprias ações, e para falar disso no Brasil temos de levar alguns pontos em consideração: 1) existe uma vantagem tributária em relação aos ETF's onde vendas abaixo de R$ 20 mil mensais são isentas da alíquota de 15% de imposto de renda; e 2) o Brasil é pobre em ETF's e a composição do nosso índice de mercado (Ibovespa) é péssima e não representa o retorno geral do mercado acionário. 

Feitas as ressalvas, afirmo: mesmo assim para o investidor comum investir em ETF's é a melhor opção, porque o investidor comum não suporta a pressão psicológica de ver a carteira cair 30% e não vender; porque o investidor comum gira a carteira excessivamente; porque o investidor comum não diversificará o suficiente; porque o investidor comum cometerá erros de análise; porque para o investidor comum os 15% de diferença no imposto de renda não farão a menor diferença perante aos pontos que provavelmente ficará abaixo do rendimento do índice.

Mesmo assim quer fazer stock picking? Então te pergunto: você entende que análise de empresas se aproxima mais de uma arte que de uma ciência? Você entende que inevitavelmente cometerá erros que jogarão para baixo sua rentabilidade? Você está ciente de que comprando o ETF e não fazendo mais absolutamente nada você provavelmente se sairá melhor? Você sabe que 80% dos investidores perdem para o índice no longo prazo? Você consegue imaginar o esforço e o desgaste de ficar analisando um monte de empresas e lendo balanços algumas vezes ao ano? Você sabe que sua planilha ridícula de comparativo de P/L's não é nada perto de softwares profissionais como o Economatica? Você calcula o tamanho de sua soberba em achar que é capaz de bater o mercado? Mesmo assim quer fazer stock picking? Ok, bem-vindo ao clube.

Diversificação
Pelo amor de Deus, esqueça o Axiomas de Zurique! É um livro com alguns bons insights, mas não tente aplicá-lo à risca. 

É difícil assumir, mas na maior parte do tempo estamos errados, nossas análises são falhas e não sabemos exatamente o que estamos fazendo. A solução para isso é a diversificação. Não iremos acertar sempre, precisamos apenas acertar mais do que erramos, e focar em proteger-nos de nós mesmos.

Ser sócio das melhores empresas...
não é sinônimo de obter os melhores retornos. Tudo dependerá do preço a ser pago pelo investimento. Empresas caras têm de apresentar resultados fantásticos para gerar altos retornos. Empresas baratas geram altos retornos com resultados apenas razoáveis. Escolher empresas com retornos futuros razoáveis é mais fácil que escolher empresas com retornos futuros extraordinários.

P/L
Uma empresa P/L 5 retorna o seu investimento em 5 anos caso mantenha sua lucratividade constante. Uma empresa P/L 20 precisa de um aumento anual de cerca de 70% dos lucros durante os mesmos 5 anos para te dar o mesmo retorno. Uma empresa P/L 5 está barata em um setor com P/L médio de 20.

Isso pode ser útil, mas o P/L não serve para muito além disso.

Growth caps x value caps
Existe uma expectativa de retorno superior por parte das value caps em relação as growth caps. Existem tantos estudos e livros que corroboram essa afirmação que, para mim, quem ainda não entendeu é porque não quis. Value caps, juntamente da maior expectativa de retorno, possuem maior risco. É a mesma discussão de que ser sócio das melhores empresas não te garantirá os melhores retornos. Aliás, nada que você fizer te garantirá retornos sequer satisfatórios no mercado de ações.

Sócio x trade e trade de valor
Definições fracas, que não encontram respaldo na literatura. Prefiro trabalhar com "investimento x especulação", aí sim uma definição que faz todo sentido e pode ser tratada de forma madura. Segundo a "sócio x trade", se você não comprar uma empresa que julga excelente ou colocar o preço como variável a ser analisada, você estará fazendo um trade. Nada mais absurdo: primeiro porque sua análise pode estar errada, segundo porque isso implica que se uma empresa piorar ela se torna uma empresa "trade" (?), e terceiro porque rios de dinheiro podem ser ganhos investindo em empresas em recuperação, ou empresas mal precificadas por problemas temporários.

Estimar uma margem de segurança para o investimento é "trade de valor"? Piada, até mesmo porque este termo é inexistente na literatura.

Moedas e ouro
Ambos não são ativos geradores de renda, portanto, possuem expectativa de retorno real próxima de zero no longo prazo. Investir em ouro ou em alguma moeda só faz sentido do ponto de vista de diversificação, de atenuar os riscos e diminuir o desvio padrão da carteira. Se você compra dólar porque acha que vai subir, você está especulando e não investindo. Não há problema nenhum nisso, desde que você saiba o que está fazendo.

Bitcoin? Entra no mesmo conceito. A menos que você consiga estabelecer um preço justo para esta moeda e justificativas razoáveis para tal, você também estará especulando. 

Risco x retorno
Esse deve ser o norte de qualquer investidor antes de realizar qualquer investimento. Não faz sentido comprar, por exemplo, FII's caso seu prêmio de risco esteja negativo, o que quer dizer que se estará assumindo um risco adicional para uma expectativa de retorno menor que a taxa livre de risco.

Sempre devemos ter em mente quanto ganharíamos na taxa livre de risco. E isso exige que entendamos um pouco de preço, um pouco de risco e um pouco sobre retorno esperado.


A ação X está cara?
Para fechar, uma questão aparentemente simples, porém das mais complexas. Se achava que ser cara ou não é uma questão de P/L, lamento: exige uma análise minuciosa. O adjetivo "cara" carece de um parâmetro, e aqui é onde mora o problema, pois o parâmetro é o valor intrínseco, algo nada simples de ser estimado. Sim, também podemos dizer que uma empresa está cara comparando-a com seu setor, mas não é esse o objetivo de quem normalmente faz a pergunta.

Se tem algo complicado, ambíguo e trabalhoso dentro do estudo sobre investimentos é o tal cálculo do preço justo. Sugiro desconfiar de alguém que tem opiniões sobre o preço de muitas empresas, porque isso exige um estudo detalhado do setor e das empresas concorrentes, dos produtos e serviços, da qualidade da administração, do potencial de crescimento, envolve intangíveis como marcas ou patentes, e mais um emaranhado de minúcias que dificilmente permitem que um investidor tenha segurança para falar sobre o preço de mais de dez empresas (na maioria dos casos sequer de uma). Olhar para um P/L e dizer que uma empresa está cara é ignorar o que talvez seja o principal fator de perpetuidade de uma companhia: sua qualidade.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Há doze meses atrás, BTG anunciava o "ano da carne"

É isso mesmo! Para os que não se lembram, há exatos um ano e um dia este blog havia comentado a recomendação das ações Marfrig (MRFG3) e Minerva (BEEF3) por parte do banco BTG. O post pode ser conferido aqui.

Como estão acostumados, este investidor é cético com qualquer tipo de previsão. Estamos repletos de exemplos da incompetência humana em prever os movimentos do mercado, especialmente os de curto prazo. Não estivesse preocupado apenas com ganhar cliques, o Infomoney poderia dar destaque a alguma matéria sobre gestão de portfólio ou alocação de ativos; fossem um pouquinho mais experientes, os analistas do BTG jamais se arriscariam a prever algo desse tipo, muito menos com frases de efeito como fizeram.

E o destino adornou-se com os caprichos da ironia mais perversa. Não bastassem os resultados variando entre o mediano e o péssimo, os "doze meses de investimento" recomendados pelo banco encerraram-se exatamente no deflagrar de uma estrondosa operação da polícia federal no setor de carnes.

Resultado da conversa: a Marfrig, com "preço-alvo" de R$ 10,00 cotada a R$ 5,44; e a Minerva, com "preço-alvo" de R$ 18,00 cotada a R$ 9,24. Antes que eu me esqueça: quem investiu no índice e atirou pela janela o notebook ignorando as ilustríssimas recomendações do BTG obteve 23% de valorização.

E depois sou eu quem implica com os analistas...

sábado, 4 de março de 2017

Fechamento - Fevereiro/2017: R$ 79.291,09 (+R$ 5.216,75 ou +7%)

Fechamos fevereiro, e mais um bom resultado para a carteira. Neste mês houve algumas particularidades, que abordarei logo mais.

A primeira delas é que, exatamente no dia 28, tive de abortar minhas operações com empréstimos. O fato é que eu já vinha recebendo metade do valor inicial (3,4% a.m.). A crise afetou bastante este meu conhecido, que por precaução teve de diminuir os empréstimos para alguns de seus clientes, cortar para outros, e acabou ficando com bastante dinheiro parado, o que significa que ele não precisaria mais de capital de terceiros.

Na primeira ocasião, em que ele me informou que teria de diminuir a taxa para meu capital, optei por deixar mais alguns meses com ele para não ter o trabalho de depositá-lo em minha conta e aplicá-lo novamente, e na esperança de que as antigas taxas voltariam. Isso não aconteceu e, num rompimento amigável (que partiu da parte dele), tomei de volta meu capital.

O problema é que eu não estava preparado para tal. O valor de meu capital em empréstimos é algo em torno de 15% do meu patrimônio, e ele cumpria um papel importante de atenuação do desvio padrão da carteira. Como não possuo aplicações em títulos, os empréstimos cumpriam esse papel (apesar de não possuírem correlação negativa).

Sendo assim, creio que finalmente iniciarei as minhas aplicações em renda fixa, por inclusive achar que o mercado de ações pode não estar tão atrativo como há alguns meses. Darei preferência a títulos de curto e médio prazo (os chamados bills e notes), com talvez algum título de proteção à inflação (TIPS). Devo deixar algo como R$ 3 mil em um CDB com liquidez diária atrelado ao CDI, e o resto dividido entre um CDB de algum banco com rating pior, e provavelmente no tesouro atrelado ao IPCA. Ainda retirarei uma parte deste montante para reaplicação em uma de minhas empresas. O valor referente ao aporte do próximo mês também será dedicado a alguma ação. O objetivo é, aos R$ 150 mil, ter algo entre 15% a 20% aplicado na renda fixa. Farei isso vagarosamente.

Agora vamos aos números:

1- Evolução patrimonial


O patrimônio atingiu R$ 79.291,09, apresentando uma subida de 7%. Ótimo resultado, e percebe-se que já vamos distanciando do patrimônio projetado para este mês, o que quer dizer que estou indo melhor do que planejei. Um detalhe: não mudarei este valor de patrimônio projetado, mesmo que me distancie muito em função de rentabilidade ou aporte. Quero deixá-lo assim afim de ver o quanto consegui superar o meu primeiro planejamento quando alcançar o milhão.

Abaixo, a evolução em forma de tabela.

                Patrimônio       Crescimento     Porcentagem
ago/15     R$ 28.239,00   R$ -                          0%
set/15      R$ 25.717,00    -R$ 2.522,00         -10%
out/15     R$ 30.574,00    R$ 4.857,00  16%
nov/15    R$ 31.093,90     R$ 519,90               2%
dez/15     R$ 31.161,00     R$ 67,10                 0%
jan/16     R$ 32.931,50     R$ 1.770,50  5%
fev/16     R$ 36.189,50     R$ 3.258,00           9%
mar/16   R$ 38.674,00    R$ 2.484,50           6%
abr/16    R$ 43.872,81     R$ 5.198,81            12%
mai/16   R$ 44.558,01     R$ 685,20               2%
jun/16    R$ 47.703,08     R$ 3.145,06   7%
jul/16     R$ 50.950,69    R$ 3.247,61            6%
ago/16    R$ 55.074,42     R$ 4.123,73   7%
set/16     R$ 54.551,57    -R$ 522,85              -1%
out/16    R$ 64.219,69     R$ 9.668,12     15%
nov/16   R$ 63.058,28   -R$ 1.161,41             -2%
dez/16    R$ 64.466,41   R$ 1.408,13      2%
jan/17    R$ 74.074,34  R$ 9.607,93           13%
fev/17    R$ 79.291,09    R$ 5.216,75              7%





2- Comparativo de rentabilidades

A carteira também apresentou uma ótima rentabilidade, e finalmente chegamos ao CDI. Ibovespa longe. Sem muito o que dizer a respeito.

Abaixo, os valores compilados:

Rentabilidade mensal: 4,01%
Rentabilidade anual: 10,92%
Rentabilidade histórica: 21,06%

3- Aportes mensais

Com um aporte de R$ 2159, continuamos bem acima da meta de R$ 1700. O objetivo é superá-la com folga como no último ano.

Comecei há alguns meses a fazer um estudo cujo qual gostaria de compartilhar aqui no blog, basicamente comparando duas carteiras diversificadas entre boas value-caps e growth-caps ao longo do maior prazo possível em que encontrasse dados confiáveis, mas abortei esta ideia devido ao trabalho espantoso de coleta de dados e já antevendo as críticas de que o estudo não teria valor algum, sendo que eu já escolheria empresas que performaram bem ao longo do tempo. A verdade é que eu tive um trabalho enorme compilando dados e faria um estudo que soaria como risível para algum investidor profissional que assina a plataforma Economatica, por exemplo. Simplesmente não dá para fazer algo tão trabalhoso com base de dados gratuita, sendo que qualquer simples erro pode comprometer todo o resultado final e jogar por terra todo o meu esforço. Não dá para querer bancar o acadêmico usando ferramentas amadoras.

Outra coisa que estou percebendo é que não tenho escrito nada na página Filosofia de investimento, que é a página mais interessante aqui do blog. Estou com uns três artigos engatilhados sobre livros que pouca gente leu, entre eles o Security analysis, que é interessantíssimo e sobre qual nunca encontrei nada em português. Vamos ver se consigo soltá-los aos poucos por aqui. 

Apesar de ter até reduzido minha participação nos blogs amigos neste último mês por falta de tempo, vejo que os objetivos principais vêm sido cumpridos, e a carteira tem evoluído consistentemente. Uma menção importante: estou gostando muito dos novos artigos que têm surgido na blogosfera abordando investimentos no exterior. Realmente está agregando muito à nossa comunidade.

Bem, por hoje é só.

Abraços a todos!
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